Um evento que tinha como objetivo o enfrentamento à violência contra a mulher, realizado na última quinta-feira, dia 9 de outubro, em Sete Lagoas, e promovido pelo Conselho da Mulher do município, foi palco de uma denúncia de racismo. Uma das conselheiras afirma ter sido alvo de insultos racistas e constrangimento por parte de outra integrante do Conselho, também mulher negra, em um caso que ela classifica como “racismo recreativo”.
É importante ressaltar que nada disso apaga a relevância do Fórum de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher nem o brilhante trabalho que o Conselho Municipal de Defesa da Mulher desenvolve em Sete Lagoas. No entanto, episódios de racismo, ainda que ocorram nesses espaços, não podem ser ignorados ou minimizados. Enfrentar esse tipo de violência também é parte essencial da luta por igualdade e respeito.
O episódio foi trazido a público pela vítima por meio de uma Nota de Repúdio, na qual ela detalha os acontecimentos e expressa sua profunda indignação em um grupo de WhatsApp do conselho.
De acordo com o depoimento da conselheira, a agressão verbal ocorreu após ela ter realizado uma cirurgia no nariz. Ao chegar ao evento, a conselheira relata ter sido abordada de forma incisiva e humilhante por outra integrante do Conselho.
“Fez isso para se embranquecer?” teria sido a pergunta gritada pela agressora, em tom afirmativo e na presença de outras pessoas. A conselheira afirma ter manifestado seu desconforto, mas o ataque se repetiu ao final do evento, quando a colega de Conselho teria voltado a “zombar” e “ridicularizar” sua aparência.
A vítima ainda menciona um episódio anterior, em outro evento, onde a mesma conselheira teria questionado seu cabelo, obrigando-a a se justificar sobre sua negritude. Desta vez, no entanto, ela afirma que o ataque foi “ainda mais agressivo e humilhante”.
“Chegou um momento em que não aguentei mais e deixei o local sem me despedir de ninguém”, relata a conselheira na nota. Ela descreve ter saído profundamente abalada, revivendo traumas de infância e adolescência e sofrendo crises de ansiedade.
Inicialmente, a conselheira afirmou que não pretendia se pronunciar, mas decidiu que “o silêncio apenas perpetua a violência”. Em sua nota, ela faz uma reflexão sobre o que chama de “racismo recreativo”, o qual se manifesta em “risadas, comentários e ‘brincadeiras’ que buscam ridicularizar corpos negros e suas escolhas”.
A conselheira enfatiza a contradição de ocupar espaços de representatividade em prol das mulheres negras e, ao mesmo tempo, reproduzir o racismo: “Não adianta ter discurso pró-mulheres negras, ocupar mesas e cargos em nome da representatividade, se na prática se reproduz o racismo recreativo”.
O veículo também está à disposição da conselheira acusada para que ela possa apresentar sua versão dos fatos.
O espaço segue aberto para manifestações e informações adicionais dos envolvidos e das entidades promotoras do evento.
A seguir, o texto na íntegra da Nota de Repúdio emitida pela conselheira:
“NOTA DE REPÚDIO
Venho, por meio desta nota, expressar meu profundo repúdio e indignação diante do episódio de racismo recreativo e constrangimento que sofri durante o evento do Conselho da Mulher, realizado na última quinta-feira.
Inicialmente, não pretendia me pronunciar. No entanto, após um fim de semana extremamente difícil, marcado por crises de ansiedade e gatilhos emocionais, compreendi que o silêncio apenas perpetua a violência. Cansei de me calar diante de ofensas.
Recentemente, realizei uma cirurgia no nariz. Ao chegar ao evento, fui abordada de forma incisiva, agressiva e constrangedora por uma das integrantes do Conselho, que, gritando, me questionou:
“Fez isso para se embranquecer?”
A fala ocorreu diante de outras pessoas, em tom afirmativo e humilhante. Manifestei minha insatisfação e respondi que não devia satisfação a ninguém. Mesmo assim, a pessoa não se conteve e, ao final do evento, voltou a zombar da minha aparência e a me ridicularizar diante de outras pessoas, rindo e debochando.
Uma participante tentou alertá-la sobre o meu desconforto, mas ela insistiu, mencionando um episódio anterior — quando, em outro evento em Belo Horizonte, também questionou a respeito do meu cabelo. Na ocasião, precisei “provar” minha negritude usando tranças, twists e outras variações, apenas para ser deixada em paz. Desta vez, no entanto, o ataque foi ainda mais agressivo e humilhante.
Enquanto ela ria e fazia comentários debochados, percebi que quanto mais demonstrava meu desconforto, mais ela insistia. Chegou um momento em que não aguentei mais e deixei o local sem me despedir de ninguém.
Saí de lá profundamente abalada.
O que vivi me remeteu a lembranças dolorosas da infância e da adolescência, quando usavam da minha aparência física para me constranger. Senti-me novamente naquela posição de vulnerabilidade, alvo de olhares e julgamentos cruéis.
Não dormi direito por dias.
Não é fácil reviver traumas antigos.
Não é fácil ser violentada verbalmente por alguém que deveria lutar pelas mesmas pautas que me atravessam.
Não adianta ter discurso pró-mulheres negras, ocupar mesas e cargos em nome da representatividade, se na prática se reproduz o racismo recreativo — disfarçado de “piada”, de “opinião” ou de “deboche”
“Entendendo o que aconteceu, vamos refletir.
Racismo disfarçado de piada também é violência
O racismo não se manifesta apenas em ofensas diretas. Ele se infiltra em risadas, comentários e “brincadeiras” que buscam ridicularizar corpos negros e suas escolhas.
Recentemente, uma mulher negra foi alvo de comentários debochados e risadas após realizar uma cirurgia no nariz. Perguntas e insinuações como “está querendo se embranquecer?” revelam a persistência de um racismo estrutural que tenta controlar até a forma como pessoas negras podem existir, cuidar de si e se expressar.
É preciso reafirmar: risada que machuca não é piada.
Humor usado como arma cultural é violência.
Racismo disfarçado de ironia é crime.
O corpo negro não precisa se justificar. Nenhuma pessoa negra deve ser questionada ou ridicularizada por suas escolhas estéticas, de saúde ou de identidade.
E é fundamental destacar: não adianta ocupar espaços de representatividade, como conselhos municipais e ao mesmo tempo reproduzir atitudes racistas ou debochadas que ferem outras pessoas negras.
Estar em um conselho exige compromisso ético, empatia e responsabilidade com a luta antirracista.
Seguimos denunciando e repudiando todas as formas de racismo — inclusive aquelas mascaradas de “brincadeiras” — que perpetuam a dor, o controle simbólico e a desvalorização da negritude.”
O veículo também está à disposição da conselheira acusada para que ela possa apresentar sua versão dos fatos.
O espaço segue aberto para manifestações e informações adicionais dos envolvidos e das entidades promotoras do evento.




























